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‘Johnny e June’ agrada, diverte, informa, mas não passa disso

Não dá pra negar que “Johnny e June” (no original “Walk the Line”) agrada. O filme é bem-feito. A produção é impecável, as músicas excelentes, as atuações muito boas e a história comovente. Mas também não há como deixar de ver que o filme não vai muito além disso. Um perfeito exemplo da crise criativa que assola Hollywood.

Mesmo assim, o filme já conquistou três Globos de Ouro (Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Atriz – todos na categoria Comédia/Musical) e cinco indicações ao Oscar (Melhor Som, Melhor Edição, Melhor Figurino, Melhor Ator e Melhor Atriz).

Trata-se da cinebiografia de Johnny Cash, um grande expoente da música norte-americana. Cash criou seu próprio subgênero dentro do Country nos anos 50 e influenciou diretamente artistas como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, entre outros. Portanto, apesar de pouco conhecido no Brasil, ele é uma das figuras que participaram da gênese do Rock’n Roll. Ao longo de vida ganhou dez prêmios Grammy e somente ele e Elvis estão na Galeria da Fama do Rock e do Country simultaneamente.

O filme retrata a sofrida infância de Johnny Cash (Joaquin Phoenix) no Arkansas em meio à Grande Depressão, à complicada relação familiar dele –o irmão mais velho, ao qual era muito ligado, morre num acidente e o pai o culpa pelo episódio–, o sucesso na música, o vício em anfetaminas e principalmente a paixão por June Carter (Reese Witherspoon). Pelo enredo, impossível não fazer relação com outra cinebiografia recente, o filme “Ray”, sobre a vida de Ray Charles.

Um dos pontos altos do filme está nas atuações. Phoenix e Witherspoon sustentaram muito bem a complexa relação entre Johnny e June e as nuances de seus personagens, além de cantarem ao vivo no filme — para tanto, foram seis meses de preparação com aulas de música e canto.

Phoenix ainda foi escolha do próprio Cash, que, juntamente com June, colaborou com o filme na pré-produção. O casal chegou até ler o roteiro (o filme demorou sete anos para ser desenvolvido) antes de June morrer em maio de 2003 e Johnny cinco meses depois.

As músicas também merecem menção. Com produção musical e composição de trilha sonora de T-Bone Burnett (o mesmo de “Could Mountain” e responsável pela produção dos primeiros discos de das bandas Counting Crows e The Wallflowers) o filme segue o tom cru e orgânico da música de raiz norte-americana. Nada mais adequado.

Contra o filme conta principalmente a falta de originalidade do diretor James Mangold (o mesmo de “Garota, Interrompida” e “Kate & Leopold”). Não há nada de novo na abordagem da história, nem estilo pessoal do diretor, apesar de uma inegável competência profissional. Parece que Mangold seguiu a receita, mas não foi além dela, não deu seu toque pessoal nem quis ousar.

O resultado é um filme que não chega a ser um marco (a receita já está gasta), mas traz ao público uma boa quantidade de informações de qualidade sobre um ícone que merece ser conhecido. E, sem dúvida, é uma boa diversão. Vale o preço do ingresso. E não esqueça a pipoca.

Resenha originalmente publicada na Gazeta do Povo Online.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr. é jornalista e sommelier de cervejas premiado. Também é professor, juiz e consultor de cervejas

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