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Alessandro Martins dá uma (entrevista) rapidinha sobre pornografia na internet

“Internet is for Porn?”. Muitos diriam que sim. Outros torcem para que continue assim. Alguns que não. Ou, pelo menos, que não mais. Mas é inegável de que a pornografia existe em abundância na web e que foi uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento da rede. No entanto a representação do sexo e atividades associadas com fins de instigar a libido, definição dicionarizada da pornografia, é tão antiga quanto a civilização. A internet, então, não apenas facilitou o acesso? Há pornografia de qualidade? Existe espaço para algo que não seja da indústria pornográfica? Há espaço para blogs sobre o assunto?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas… São muitas. E o assunto é pouquíssimo debatido. Vergonha? Tabu? Não sabemos. Porém há luz no fim do túnel, e não é o trem! É o Campus Blog, evento para blogueiros (confira a programação aqui) inserido na segunda edição do Campus Party Brasil, que acontece de 19 a 25 de janeiro de 2009 no Centro de Convenções Imigrantes, em São Paulo. “Internet is for Porn?” é um dos painéis de debate, mais especificamente o que será apresentado no dia 23, às 16h35.

Para adiantar o assunto convidei para uma (entrevista) rapidinha o jornalista e blogueiro profissional Alessandro Martins, afim de adiantar o assunto e participar da promoção do Interney que, afinal, também  sou filho do Homem e quero meu ingresso para o Campus Party.

Conheci o Alessandro no Encontro de Blogueiros de Curitiba (#ebc) há alguns meses. E aos pouco fui conhecendo também seus blogs: Cracatoa Simplesmente Sumiu, Livros e Afins, Quero Ter Um Blog, Eu Pratico Yôga, Iniciante na Bolsa e suas colaborações constantes para o NossaVia. Ufa!

Além desses, Alessandro tem um blog sobre sexo, o Pink The Kink, que está concorrendo na categoria sexo do Best Blogs Brazil (além de outros três blogs! Inclusive o Livros e Afins que concorre em Artes e Cultura, na mesma categoria do Bar do Celso). Aqui ele defende que antes de mais nada, a internet é uma mídia social, e a pornografia está inserida dentro desse conceito. Ele também defende –e demosntra no Pink, a meu ver– que existe sim pornografia de qualidade. Bem, vou deixar vocês lerem. É com muito prazer (sem duplos sentidos) que apresento, Alessandro Martins.

1 – Então, não gosto muito de entrevistas por e-mail, mas vamos lá por que é o jeito. Você já conhece a rotina. Fale um pouco sobre a sua carreira como jornalista e editor de blogs. Não deixe os detalhes sórdidos, como idade, de fora.
Eu sou jornalista por formação, mas uma inclinação natural para a coisa me trouxe para os blogs e para as mídias sociais. Acho que eles se encaixam bem na minha idéia de independência e na possibilidade de sempre se reinventar. Nos jornais, admito, estava me sentindo engessado e dependente dos outros, embora estivesse bastante anestesiado a respeito a ponto de não tomar nenhuma atitude… enfim. Hoje, aos 35 anos, edito seis blogs e vivo deles.

2 – Você tem um blog sobre sexo e vai participar do debate no Campus Blog sobre pornografia. Primeiro, por que ter um blog sobre sexo e mulher pelada? Depois, como você se meteu nessa fria do debate?
Meu blog sobre sexo não é sobre mulheres nuas. Seleciono fotografias e artistas e, não poucas vezes, elas aparecem vestidas. Acredito que, hoje em dia, as roupas são muito mais reveladoras da sexualidade, muitas vezes, do que a própria nudez, que está banalizada. Naturalmente, boa parte das imagens que seleciono trarão nudez e sexo explícito, mas sempre procuro selecionar imagens que tenham a ver diretamente com o que considero interessante, seja esteticamente seja pessoalmente do ponto de vista sexual. O debate deve ter sido conseqüência de eu ter diversos sites relativamente conhecidos e “sérios” do ponto de vista padrão e, ao mesmo tempo, ter esse blog sobre entretenimento adulto, arte erótica e sexo explícito (muito embora, ultimamente o Pinky The Kinky esteja bem “softcore”). O Cracatoa, no entanto, também traz diversos textos com conteúdo adulto…

3 – O tema do painel que você vai participar é “Internet is for Porn?”. Adiantando o bate-boca, ela é ou não para isso? Quem sabe, não só para isso, claro. Mas qual é o peso? A pornografia ainda é um dos motores que movimentam a internet?
Recentemente o interesse tem crescido para as redes sociais. O ser humano é um ser sexual, mas para ser sexual, antes, ele precisa ser social. No entanto, como o sexo é uma necessidade premente, é natural que se busque e se ofereça aquilo que sacie essa necessidade às fartas, na internet. Foi o que veio primeiro em volume. Muita pornografia. A internet é a arte do encontro, uma forma de descobrir que não se está só. Quando –por exemplo– o cara que ficava excitado com fotos de mulheres usando fones de ouvido descobriu que havia um site sobre isso, ele entendeu que não estava só. Quando surgiram os grupos de homens que gostavam de mulheres com pernas engessadas e de mulheres que gostavam de ter pernas engessadas, eles descobriram que poderiam, ao menos em possibilidade, ter uma vida sexual satisfatória. Não existe sexo normal. E, se formos perguntar para cada um o que se considera sexo normal, se todos forem sinceros, veremos que não haverá uma resposta igual à outra. A internet, na sua possibilidade de abrangência, disseminação e anonimato, permitiu exibir as diferentes formas de “normalidade”. Quem se sentia anormal, passou a se sentir mais normal ou, ao menos, menos sozinho. Se a “Internet Is For Porn”, creio que esse é o seu sentido mais benéfico.

4 – Pode-se falar em pornografia de qualidade na web? Como diferenciar as coisas (sem duplo sentido aqui)? É apenas questão de gosto pessoal?
Claro que há qualidade. Uma das mais belas fotos que vi este ano na internet foi a de uma penetração anal feita por um fotógrafo (a foto, não a penetração) chamado Jesus Coll. Você pode mostrar sexo explícito e ter qualidade. Não gosto da definição que diz que para serem eróticas e de qualidade, artes que representem o sexo devam ser apenas sugestivas: talvez esse posicionamento tenha mais a ver com o medo de ver um pau entrando em um cú, com puritanismo e repressão. O erotismo tem a ver mais com qualidade, com técnica, com produções bem feitas e engenhosidade. Qualidade (seja em pornografia ou em qualquer outro ramo artístico) tem mais a ver com a energia que se coloca no trabalho. Pouca energia? Má qualidade. Muita energia? Qualidade, estética, beleza. Porém, em pornografia, não se deve confundir qualidade com gosto pessoal: às vezes, o indivíduo pode reconhecer a beleza e a qualidade de uma foto, um texto ou um vídeo, mas aquilo não o excita. E, por definição (basta olhar no dicionário), para ser pornográfica uma obra deve instigar a libido do observador.

5 – Há espaços para blogs nesse nicho, ou a indústria pornográfica ainda é soberana? Como diferenciar um blog dessa “máquina” de sexo explícito (com todo o duplo sentido aqui)?
Gosto muito da definição dada pelo Tiago Dória em que ele aponta o blogueiro como um DJ de conteúdos. Acho que assim como em outras áreas isso funciona para o caso da pornografia principalmente. Claro que sempre há a chance de se produzir conteúdo original ou se apontar conteúdos que estão fora da web, mas no caso de blogs de sexo explícito e erotismo isso funciona muito bem.

6 – Acompanhei uma polêmica por meio de uma lista de discussão sobre um blog lésbico que o blogspot havia bloqueado por não ter aviso de conteúdo adulto. Não havia imagens no site, nem vídeos, mas histórias para lá de picantes que também não pretendiam ser contos eróticos. Fica a pergunta, isso é pornô também? Ou trata-se apenas de um blog para determinado público? Como evitar o acesso por parte do público para quem isso é inadequado, como menores, por exemplo? Censura?
O Google é uma máquina. Ele não tem como diferenciar arte e delicadeza de um mero ajuntado de palavrões e chavões de sexo explícito. Não conheço o caso, mas parece ter sido o caso dessa injustiça. Porém, acho uma hipocrisia o velho “clique em sair se você tiver menos de 18 anos”. Isso não funciona. Ou os pais bloqueiam a coisa através de programas ou, melhor, educam seus filhos, coisa rara de acontecer hoje em dia. Sempre a responsabilidade é de alguém que não está por perto para poder realmente ser responsável. Pais que não queiram que seus filhos vejam conteúdos indesejados na internet DEVEM cuidar pessoalmente do assunto. Meus pais não queriam que eu visse (não havia internet na época). Isso não impediu que eu pegasse as revistas de sacanagem de meu pai escondido.

7 – Muitos sistemas de afiliados e monetização de blogs não permitem a veiculação de anúncios em sites e blogs de “conteúdo adulto”. Isso é certo? Qual sua opinião?
Creio que cada programa de remuneração adota a política que melhor lhe cabe. Isso é uma decisão das pessoas que gerenciam esses programas. Eles obedecem leis de mercado. Se um dia o mercado mudar, isso vai mudar. Não é pessoal.

8 – O público de um blog sobre sexo é fiel? Digo, ao blog, claro.
Creio que o público é fiel na medida em que se identifica com o gosto e com as peculiaridades do blog. Se é um blog que mostra “as mesmas mulheres peladas” o público então encontrará outros blogs similares, com “as mesmas mulheres peladas”. Se quem se mostra, no entanto, é o editor ou editora do blog, então o público só encontrará aquilo naquele blog. De certo modo, para ter um público fiel, o editor do blog deve se mostrar nu através das imagens e conteúdos que decide despir em seu blog. Entenda isso como preferir. Creio que é uma forma indireta de nudez, pois –ao mostrar aquilo de que gosto– eu me mostro. Se o público gostar e for tão peculiar quanto é peculiar o editor, vai se tornar fiel.

9 – Vídeos, fotos, textos, participação do público, etc.? Quais são as estratégias que funcionam nesse nicho?
Alguns textos. Mas sinto que, nesse nicho, o povo quer ver mesmo fotos. Eventuais vídeos, mas ainda não fiz experimentações. Desde que mudei para mais fotos e menos textos, o número de visualizações de página subiu bastante. Mas a estratégia da imagem já é antiga e de bom resultado, vide o blog Obvious e outros. Para mim tem sido uma experiência divertida, pois sou sobretudo um homem do texto e é bom mudar de posição de vez em quando.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr. é jornalista e sommelier de cervejas premiado. Também é professor, juiz e consultor de cervejas

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