“Metegol” não é show de bola; é um sonho sobre futebol

Quando recebi o ingresso para ver “Metegol” fiquei dividido. Feliz, pois como um dos “filhos” da mistura teatro com circo – além de ser jornalista fui palhaço e malabarista, acreditem ou não – iria ter a oportunidade de conferir o 10.º trabalho de uma das mais prestigiadas companhias que se utiliza há 20 anos desse gênero no país, a carioca Intrépida Trupe. Triste, porque não gosto de futebol, não tenho time do coração e mal vejo os jogos da seleção. Minha história de desamor com a paixão nacional é longa, mas o foco aqui é outro.

Talvez exatamente por isso tenha ido a Opera de Arame nesta quinta-feira (27) despido de expectativas – pelo menos quanto à representação do esporte – o que foi minha salvação. Quem conhece a fama da companhia sabe da sua tradição de grandes e ousados espetáculos, e principalmente, de impacto. “Metegol” não é isso. Pelo menos, não só isso. É uma montagem muito mais lírica, até onírica diria. “Metegol” não é show de bola; é um sonho sobre o futebol.

No início do espetáculo oito atores descem no palco pendurados por tiras, formando um grande pebolim humano. Essa idéia, dos bonecos do “totó” que ganham vida, se soltam das amarras e começam a disputar o jogo para valer parece perpassar toda a peça que, dividida em partes – como se a cada uma a nova partida fosse iniciada –, traz diversas situações do jogo por meio da dança, acrobacias e expressão corporal. Aquele empurra-empurra dentro da área, as faltas, o gol, a torcida e até mesmo os narradores e comentaristas esportivos com seu replay estão lá.

Até onde se sabe, a idéia inicial do espetáculo foi dada pelo cineasta Aluízio Abranches e depois trabalhada pela companhia. A pesquisa que antecedeu a montagem foi feita com personalidades apaixonadas por futebol, entre elas o compositor Chico Buarque de Holanda – sua filha, Luiza, participa do grupo. Talvez daí venha mais uma pista sobre o que vemos no palco. É um sonho, sim, mas dos apaixonados por futebol.

O espetáculo se concretiza de forma muito bela plasticamente. Movimentações e figuras, de solo e aéreas, bem realizadas. A música – que vai de barulhos de estádio, burburinhos até o gênero eletrônico – e a iluminação reforçam a sensação de estar dentro do sonho de alguém. Já os elementos de maior impacto, como acrobacias mais ousadas e as piadas, foram diluídas e dosadas no sentido de não desviar da idéia central e não explorar somente o virtuosismo físico e humor da trupe.

Com tudo isso, acho perfeitamente compreensível que muitas pessoas tenham saído do espetáculo dizendo que o acharam chato. Todos têm direito a opinião. Mas nesse caso a questão se explica pela frustração – mesmo que parcial – da expectativa. O nome Intrépida Trupe faz as pessoas esperarem um super show que, na visão dessas pessoas, não aconteceu. Há muitos precedentes artísticos disso, principalmente na música, onde fãs inveterados chegaram a desistir de sua adoração por mudanças nas propostas musicais.

Mas, se não fosse isso, não teríamos sempre uma eterna repetição? O novo nunca entraria em pauta. Portanto, digo que é necessário que o artista se reinvente, como fez a trupe. E aconselho: se for ver “Metegol”, tente deixar suas expectativas do lado de fora e embarque no sonho que a companhia propõe. Só assim você poderá realmente curtir o espetáculo, como eu curti. E sabe que até estou pensando em ir ao estádio este fim de semana.

Texto originalmente publicado no Blog do Festival, na Gazeta do Povo Online.

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Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr. é jornalista e sommelier de cervejas premiado. Também é professor, juiz e consultor de cervejas

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