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O “algo a mais” que falta em “Três Mulheres e Aparecida”

O que faz você levantar da sua poltrona em casa, comprar um ingresso e ir ao teatro? Qual é o fator que faz você escolher esta e não aquela peça? Isso é tema de muita discussão e não se pretende encerrar o assunto aqui. Mas, claro, é necessário um interesse pelo tema, um envolvimento com a história, uma certa identificação, enfim, algo a mais que diferencie este de tantos outros espetáculos – principalmente numa torrente de apresentações como acontece no Festival de Curitiba. Seja o que for, faltou em “Três Mulheres e Aparecida”, da companhia Theatro XVIII, de Salvador.

O Teatro do Sesc da Esquina, que possui capacidade para 300 pessoas, tinha apenas cerca de 50 nesta quinta-feira (20). Competindo com “Virgulino e Maria”, “Volúpia” e “Júpiter”, obviamente “Três Mulheres e Aparecida” ficou em segundo plano.

A peça – encenada pela primeira fez em 2000, na época das comemorações dos 500 anos do Brasil – busca contar a cansada história da colonização, porém pela ótica feminina. A atriz Rita Assemany se reveza no papel de quatro diferentes mulheres. A primeira, fio condutor da montagem, é a contemporânea mendiga Aparecida, que passa o dia vasculhando latas em busca de comida.

No desenrolar da peça, ela se “transforma” em outras três, todas da época do “descobrimento”. A primeira é a índia tupinanbá Jacapu Coema, seguida pela divertidíssima prostituta portuguesa Maria Pureza e pela escrava angolana Luedji.

O que se viu no palco foi um monólogo bem montado, escrito e dirigido. Bom cenário, trabalho de som, luz e de atriz – Rita Assemany conseguiu tirar alguns bons risos da pequena e tímida platéia. Mas fica nisso. Nada se sobressai o bastante. Não há um diferencial. E o tema, já muito batido, também não ajuda – mesmo na tentativa de ser diferente pelo ângulo de abordagem.

O objetivo, até onde se deu a entender, era de provocar uma reflexão sobre a história, contada pelas mulheres, e sobre sua condição feminina nesse período. Mas o que se viu, foi a mesma história, com poucas modificações, e uma condição estereotipada da mulher – fora a parte da índia, da qual se entendeu pouca coisa em razão da encenação confusa e não falada em nosso idioma – as outras duas aparecem cozinhando e falando em sexo. Será que era só isso?

Além disso, a reflexão ficou em segundo plano. Mostrou-se a condição feminina, mas a platéia foi pouco instigada a evoluir no raciocínio da peça. Abriu-se o espaço, mas faltaram as perguntas. Talvez este pudesse ter sido o algo a mais, buscado, mas não atingido, que transformaria uma boa peça em ótima.

Serviço: “Três Mulheres e Aparecida”. Quinta (20) e sexta-feira (21) às 20h30. Teatro do Sesc da Esquina (Rua Visconde do Rio Branco, 969) Tel.: (41) 3322-6500. R$ 30,00 e R$ 15,00 (estudantes e idosos).

Texto originalmente publicado no Blog do Festival, na Gazeta do Povo Online.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr. é jornalista e sommelier de cervejas premiado. Também é professor, juiz e consultor de cervejas

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