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O tímido mais notório do Brasil completa 70 anos

Não lembro exatamente quando eu provei pela primeira vez. Apenas recordo do prazer que senti. Era uma sensação inebriante. O riso vinha fácil, e quando me flagrava já estava às gargalhadas. Eu confesso, sou um viciado em Luís Fernando Veríssimo.

O viciado acima realmente existe. Sou eu, e confesso que ainda recorro a este expediente. Foi numa dessas crises de abstinência que descobri que um dos meus ídolos completava 70 anos neste dia 26 de setembro (apesar de fã, nunca fui de conferir biografias). Tentei entrar em contato com ele e consegui uma entrevista exclusiva por e-mail. Nela, Veríssimo escreve sobre política e suas perspectivas da mesma forma como costuma falar: pouco. Mas nem por isso suas respostas deixam de resolver as questões. É apenas o exercício da concisão.

Claro que não se trata apenas de tietagem minha. Esse gaúcho de Porto Alegre, filho do escritor Érico Veríssimo, é um dos grandes nomes da literatura atual – se não da séria, pelo menos da comercial. Já chegou a vender mais de 350 mil exemplares de uma mesma edição, marca que impressiona num país de poucos leitores de livros como é considerado o Brasil.

O fenômeno não é febre ou best seller rápido. Seus 67 livros e os 40 anos de carreira provam isso. Apenas o sucesso no âmbito nacional já dura mais de dez anos, tempo desde o lançamento de “As Comédias da Vida Privada”, livro de crônicas que serviu de base para um dos mais premiados seriados televisivos já produzidos pela Rede Globo.

Apesar de já ter lançado também romances, as crônicas são decididamente o ponto forte de Veríssimo. Sempre com muito humor, elas lançam um olhar extremamente perspicaz sobre o cotidiano, desvendando nossos olhos para as situações ridículas e risíveis pelas quais passamos diariamente.

Além disso, ele é o criador de personagens que hoje são até temas de filmes, como Ed Mort, uma paródia do detetive particular americano. Também deu formas ao Analista de Bagé, psicanalista gaúcho adepto de tratamentos nada convencionais dos problemas alheios, e da Velhinha de Taubaté, uma crédula senhora que nunca põe em dúvida o que o governo afirmava.

Jornalista, mas do tempo em que não se precisava de diploma para exercer a profissão, Veríssimo começou na profissão como copydesk (uma espécie de revisor de textos) no jornal gaúcho Zero Hora. Depois passou por vários cargos e por fim assumiu uma coluna diária.

Também fez traduções, devido à fluência no inglês que adquiriu quando estudou na Califórnia, quando pequeno, e em Washington, no High School. Hoje é casado com Lúcia Veríssimo e têm três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro. Toca saxofone nas horas vagas, hábito que também trouxe dos Estados Unidos, e chega a se apresentar em bandas de Jazz. Como qualquer profissional, afirma que seu hobby é muito melhor que seu trabalho e que se pudesse, não faria outra coisa.

Aniversários normalmente puxam uma reflexão sobre a vida, um balanço. Para você também é assim?
Não sei se está na hora do balanço, se bem que já não sobra muito tempo. Na verdade a gente pensa no fim da vida desde cedo, desde os 30, mas mesmo assim se surpreende ao chegar a 70. Acho que tudo que tinha para pensar a respeito, já pensei.

Certa vez você afirmou que, talvez, a medida em a idade chega, você caminhe para um ceticismo terminal. Em que ponto do caminho você está agora, ou mudou de estrada? A política está influenciando muito? E a Velhinha de Taubaté, continua crédula?
Eu sou um cético natural, em tudo, o que não impede de tentar me posicionar, politicamente, com coerência. A Velhinha de Taubaté morreu de tanto desgosto, depois que seu último herói, o Palocci, se viu envolvido em escândalos também. O desgosto dela foi um pouco o meu, com a política em geral, mas minhas convicções – pelo menos na última vez que chequei – continuam intactas.

Você se considera um escritor profissional e diz que não faz literatura. No entanto, sua produção possui inegáveis valores literários. Acima de tudo, seus textos são apreciados por muitas pessoas. Não seria este fator, o público, que define o que é ou não literatura? Como você lida com este paradoxo?
Quando eu digo que o que eu faço não tem muito valor literário não é modéstia, não. Sei o que eu sei fazer e faço bem. Mas não é literatura, comparada a de autores sérios e importantes. A aceitação do público envaidece, é claro, e no caso do público jovem surpreende, porque não escrevo deliberadamente para jovens. Mas conheço o meu lugar.

Certa vez você afirmou que o humor é uma linguagem. Será esta a linguagem pela qual o brasileiro melhor se comunica, por isso a empatia com você e suas obras? Ou seria o gosto pelas pequenas coisas, pelo cotidiano, que conquista o público?
É, o humor é um jeito de dizer, e com ele pode-se dizer de tudo, até coisas sérias. E ele torna a leitura mais atraente. Como eu escrevo muito sobre a minha tribo, a classe média brasileira, isso talvez também facilite a comunicação.

Você já foi conhecido como “o escritor que não sabe dizer não”. Jaguar diz que você é uma fábrica de fazer humor, e que trabalha como um mouro. Continua com esse ritmo frenético? Há algum tipo de aposentadoria em vista?
Tenho escrito menos. Durante muito tempo tive uma coluna diária, que é mortal, e ainda fazia um tira em quadrinhos, escrevia para a televisão, etc. Agora estou mais folgado, mas ainda trabalho bastante. Não sei por quanto tempo mais. Talvez até ficar gagá. Há quem diga que já estou…

E quanto a influência: sua obra é referência para muitas pessoas. Eu, por exemplo, escolhi jornalismo por gostar de suas crônicas. Qual é a sensação de ter tal peso em seus escritos?
É bom saber que contribui para escolhas e influenciei pessoas e estas são sempre manifestações de carinho que me tocam muito, mas não tenho nenhuma vocação para guru ou qualquer tipo de eminência. De qualquer jeito, obrigado.

Obrigado a você Veríssimo, e feliz aniversário.

Texto originalmente publicado no site (sic!)

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr. é jornalista e sommelier de cervejas premiado. Também é professor, juiz e consultor de cervejas

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