Tendências do mercado cervejeiro 2016: especialistas falam como será o ano para os diversos ramos da cerveja artesanal

O ano de  2016 começou com muita instabilidade econômica e política e vem afetando cada dia mais o comércio. O mercado de cervejas artesanais no Brasil ainda é considerado novo e, em algumas áreas, caminha a passos largos. Mas será que a crise irá afetar esse próspero mercado? Quais são os maiores desafios para quem está atuando na área? Para responder sobre isso e traçar as principais tendências do mercado cervejeiro em 2016 pedimos a opinião de especialistas que atuam no mercado de cervejas artesanais, em várias vertentes. Alguns muito otimistas, outros nem tanto, apontam que a criatividade e a qualidade serão essenciais para superarmos os percalços de 2016. Confira as respostas abaixo:

Cursos de cerveja e profissionalização –  Kathia Zanatta – Biersommelière e Mestre Cervejeira,sócia do Instituto da Cerveja 

“Apesar da crise econômica que assola nosso país, começamos o ano no ICB com salas de aula cheias e temos ótimas expectativas para 2016. Já que as expectativas para o mercado de cervejas especiais são de crescimento, observamos que além daqueles que já trabalham no setor, outras pessoas tem sido atraídas para um “plano B”, e por isso, buscam conhecimento para entrar no mercado. A educação é certamente a base para um crescimento sustentável e em função disto estamos investindo nossas energias para toda a cadeia cervejeira: de consumidores a produtores, importadores e pontos de venda. Temos planos de expansão dos nossos cursos tanto em praças quanto em novos conteúdos.”

Mercado de franquias – Daniel Wolff  – Proprietário da rede de franquias Mestre-Cervejeiro.com

“Em 12 anos trabalhando com cervejas especiais não vi retrocesso nesse mercado. 2015 foi o melhor ano até agora, não tem porque 2016 ser pior. Nosso faturamento cresceu em média 50%, na comparação de dezembro de 2014, com dezembro de 2015. Nosso foco para 2016 é aumentar o faturamento médio da rede em 20%. Para isso vamos aprimorar qualidade no serviço, tanto da franqueadora ao franqueado, como do franqueado ao cliente e aumentar o número de produtos exclusivos da marca. O aumento dos impostos é o nosso obstáculo e vamos contorná-lo investindo em qualidade no serviço”.

Jornalismo cervejeiro – Roberto Fonseca, jornalista especializado em cervejas especiais, autor da enquete Os Melhores do Ano.

robertofonseca“Minha previsão para o ano em termos de comunicação e cervejas artesanais é mais uma esperança, e pode ser resumida em uma palavra: construção. Há uma boa rede de blogs e sites cervejeiros trazendo em primeira mão novidades do mercado – em boa parte municiadas pelos próprios cervejeiros e importadores. Há debates interessantes nos fóruns cervejeiros. Há formatos não tão novos em outras áreas – podcasts, vídeos – sendo mais utilizados. Mas falta o fundamental: construir informação. Isso vai das cervejarias, que se escoram mais em páginas de Facebook e no Untappd quando o assunto é informar o consumidor. Ambos os canais podem ser bastante acessíveis, mas carecem de hierarquia de dados e serviços – o Untappd permite que você saiba onde uma cerveja está sendo consumida com base em opiniões alheias, mas requer mais esforço para achar um local mais próximo de onde ninguém esteja transmitindo, algo que um mapa de “onde comprar” no site da cervejaria se sairia melhor. A comunicação dos produtores, a meu ver, também poderia ser mais rica e detalhada, com histórias sobre rótulos, pessoas envolvidas no processo, em resumo, o storytelling de que tanto se fala atualmente para cativar leitores – no caso, consumidores.

Quanto aos blogs e sites cervejeiros, o desafio da construção está em ir além da curadoria de redes sociais e repetição do factual – lançamentos, expansão de fábricas etc. É preciso unir várias peças de informação de diferentes locais e criar narrativas que levem o leitor além, a pensar sobre a cerveja que está tomando e o modo como ela é feita; sobre o que poderia ser melhor e não é e sobre o que ele, consumidor, poderia fazer para cobrar os cervejeiros ou ajudá-los. Isso inclui histórias e dados. Também é necessário buscar novas formas de engajamento. Se no caso das cervejarias os sites ainda parecem uma ferramenta importante, no dos blogs o formato “texto foto” já ficou ultrapassado. Modos de contar uma história existem aos montes e a Internet tem oferecido, diariamente, dúzias de aplicativos e ferramentas para tal. Mas é preciso uma boa dose de pesquisa, estudo e aplicação. Mas aí chegamos a outro problema: como é difícil trabalhar com informação digital cervejeira e ter uma remuneração que permita dedicação maior que a de um hobby. Esse mistério, contudo, não foi resolvido nem pelos jornalistas…”

Procerva  – Luciano Wengrzinski – Diretor da Procerva, proprietário da Wensky Cervejaria. 

lucianowensky” Acreditamos que o ano de 2016 devemos estar ainda mais unidos, não só regionalmente mas também nacionalmente, para nos tornarmos mais representativos e sermos reconhecidos pelas instituições políticas e fiscais do nosso país. Somos injustamente tributados por impostos astronômicos, instabilidade econômica que fez o dólar disparar, energia elétrica, poder de compra do povo brasileiro esta reduzindo, os estados retirando incentivos fiscais e criando novos impostos. Acreditamos que a cadeia toda seja ela as microcervejarias tal como as microempresas fornecedoras do setor devem ser gravemente afetadas ( fornecedores de equipamentos e serviços em principal ) pelo fato de as microcervejarias não conseguirem fazer o repasse de todos estes aumentos sofridos e terem suas margens de lucro drasticamente reduzidas e por conta disso suspenderem projetos de expansão.

Todos estamos na expectativa de as microcervejarias serem inclusas no super simples nacional para poderem voltar a crescer e aquecer novamente a cadeia! Nosso foco principal seria a união do setor para podermos brigar como um bloco a favor de todos”.

Bares de cerveja –  Fábio Galvão, um dos sócios proprietários do Hop´n roll, bar especializado em Curitiba. 

fabio galvão “2016, ao meu ver, será um ano tão desafiador quanto 2015. No entanto, como trabalhamos com produtos de alto valor agregado acredito que conseguiremos manter nossos clientes interessados nesse produtos e nas novidades que estamos sempre “garimpando”. A grande dificuldade para o ano, será a  tal crise de confiança, podendo acarretar em uma leve retração no consumo em geral. Aliado a isso, estamos convivendo com aumento atrás de aumento nos impostos de nossos produtos e no custo fixo, como água, energia etc. Por isso cada vez mais as cervejas locais serão um grande atrativo, com bom custo benefício. Nosso desafio é e sempre será buscar um nível de excelência dos produtos que vendemos e, principalmente, do nosso atendimento. Queremos manter nossos clientes satisfeitos, sem esquecer de manter nossos colaboradores também satisfeitos. Apesar da crise, esse pode ser um bom momento para visualizarmos oportunidades de crescimento do nosso negócio”.

Bares de cerveja – Paulo Almeida – Proprietário do Empório Alto Pinheiros, bar especializado em São Paulo. 

paulo almeida eap “Infelizmente não temos bola de cristal. Deve ser um ano complicado, mas achar que será um ano horrível é antiprodutivo. Temos bastante esperança de chegar no fim do ano bem satisfeitos. Para isso muito trabalho, muito planejamento, criatividade e foco. As pessoas continuam bebendo e confraternizando. Então precisamos convencer que nosso bar é um lugar legal para isso. Foco para não dispersar energia nem dinheiro. Qual é meu público alvo? O que ele quer? Fora isso, otimismo. Acho que é uma coisa que está faltando hoje. Quer choradeira liga a tv. As pessoas procuram um bar alto astral, com prateleiras cheias, com investimento e melhorias acontecendo. Acho que é por aí.”

Cervejarias Ciganas – Curitiba – Mestre André Junqueira da Morada Cia Etílica.

 “Então, sem sombra de dúvida a tendência para 2016 será a luta pela sobrevivência. O cenário econômico recessivo que desacelera o consumo, o câmbio desfavorável pressionando os custos de insumos, os absurdos aumentos de impostos e o já conhecido “custo Brasil” sem dúvida irão forçar os cervejeiros a entrar num modo “sobrevivência”. Será um ano onde os cervejeiros terão que tirar leite de pedra, abusar da criatividade e qualidade para se manter relevantes, buscar opções de menor custo para se enquadrar na nova equação “custo X benefício” em tempos de crise. Por outro lado, sigo notando o crescente interesse do público pelas cervejas artesanais, portanto existe futuro para nosso mercado.”

Cervejarias Ciganas – São Paulo – David Michelsohn da Cervejaria Júpiter 

david júpiter “Assim como 2015, 2016 não será um ano de muito crescimento. E o principal desafio será garantir as vendas apesar da carga tributária extra, grande vilã dos pequenos cervejeiros. Eu enxergo algumas maneiras para se tentar essa façanha. E aposto minhas fichas em duas: participar de festas e festivais para divulgar a cerveja e explorar receitas criativas e inusitadas para cativar o público. Também acredito que vamos ver um crescimento expressivo do volume de chope em relação às garrafas. O público já está aprendendo a identificar que a cerveja mais fresca é melhor. Essa é uma grande oportunidade para reforçar a ideia do “Beba Local” e os ciganos, apesar de não terem casa própria, trabalham sempre no mercado local”.

Em tempo: O BarDoCelso.com tentou entrar em contato com a Abracerva, alguns importadores e outros players do mercado, mas até o fechamento desse post não tinha recebido respostas. Agrademos a todos que participaram desse levantamento!

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Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr. é jornalista e sommelier de cervejas premiado. Também é professor, juiz e consultor de cervejas

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